17.12.05

Fome de quê?


O post abaixo fez sucesso - Giselli riu pra caramba e Luciana mandou pros amigos lerem. Aproveitamos nossa hora de almoço pra discutir filosoficamente o assunto e chegamos à conclusão que o negócio é demonstrar ATENÇÃO e VONTADE. Claro que um cara 'esguelado', que olha só pra comida e nem um pouco pra você, não merece ser levado em consideração. Mas alguém que pega no garfo com firmeza, se mostra interessado na refeição e na companhia (é possível se concentrar em mais de uma coisa), deve ser visto com mais atenção...
Lu foi incisiva em dizer que isso não tem nada a ver com falta de boas maneiras, e que homem que arrota, não limpa a cara e fala de boca cheia também não tá com nada. "O que me angustia são aqueles caras que parecem ter cinco anos, botam dois grãos de arroz no prato e comem sem vontade, sem decisão", comentou horrorizada. A palavra-chave parece ser essa, rapazes: DECISÃO, fome que é também de vida! Mostrar-se inteiro, concentrado, também nessa hora. Entregue ao prazer - vixe, que a gente quando passa muiiito tempo em privação, sem ter o que comer, começa a delirar, afemaria, abafa o caso. Parte da graça da coisa, como explica minha guru Luciana, é ver esse impulso vital ser posto em prática e, no fim, presenciar o rapaz sereno... saciado. Hum, tá! Vamos mudar de assunto, que eu ando sem companhia pra jantar?
Pra encerrar o tema, direi que só tem mais uma coisinha sobre a qual concordamos: não dá pra suportar um homem que come menos que a gente. Por diversos motivos. Da humilhação de se sentir um caminhoneiro diante dele, à suspeita de que a festa vai acabar antes da gente estar satisfeita. E tenho dito!
Ps-Os homens também têm sua opinião sobre o tema... Vide o mestre
Xico Sá!
(Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 19 de outubro de 2005)

Apetite


Hora do almoço, ontem, no trabalho. Vamos ao Abelhinha Light, pé-sujo a quilo aqui pertinho. É quando, não sei porque, entra-se na conversa de homem fresco pra comer. “Odeio homem assim, faço uma imediata associação sexual”, detona Lu, minha colega quietinha que de vez em quando tem umas tiradas surpreendentes. “Desenvolve”, peço a ela. “Mas isso é claro, né, Mariana? É um ótimo teste! Homem que pega no garfo delicadinho... que só bota no prato comida sem sal, tipo arroz com peito de frango... que come a mesma coisa todo dia... que não gosta de alho nem cebola, que puxa os verdinhos pro lado porque isso não come, porque é feio, é sujo, é ruim... homem que faz cara de nojo pra comida e não tem coragem de experimentar coisas novas... ah, um homem desses não pode ser bom de cama”. Tive um acesso de riso mas tenho que concordar: faz sentido.
(Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 19 de outubro de 2005)

Dia dos Professores

(Estes não são alunos dela - espero que tenham a sorte de ter uma professora parecida)

Com atraso, mas com carinho, deixo aqui um beijo pra minha amiga-irmã Idalina, através da qual homenageio todos aqueles que, na vida, resolveram ser professores de uma forma que honre o título. Dadá ensina a ler, ocupação que por si só já me fascina: como será ter a experiência de mostrar às crianças maneiras de desvendar novos mundos? Cada qual tem sua lógica, seu tempo, seu ritmo, e por isso eu imagino que não é uma tarefa nada monótona lidar com uma multidão de pestinhas, que a cobrem de afeto diariamente.
Dadá tem duas turmas. Uma, num colégio particular do Recife, que apesar de pagar mal aos funcionários já foi premiado pela metodologia inovadora de alfabetização, sendo considerado exemplo em construtivismo, novas perspectivas de educação e outros bichos. A outra turma é num colégio pobrezinho, da Prefeitura, para onde ela foi concursada há cerca de dois anos.
Eu ainda morava no Recife quando ela começou a trabalhar nessa escola. Parecia um furacão. A primeira providência foi fazer uma campanha com os amigos, providenciando escovas de dente para distribuir entre os alunos: alguns nunca tinham escovado os dentes (!), outros dividiam a escova com o restante da família (!), a maioria esmagadora não trocava a dita cuja há vários meses.
Quando vim pro Rio, ela me intimou até eu doar minha amada coleção de gibis da Mônica, pra que eles pudessem ter ao menos algo que ler. Dadá parece a formiga atômica, não pára quieta, não deixa de inventar um jeito novo de fazer os danadinhos pensarem – e saber pensar é a função mais nobre de um ser humano...
Pois semana passada liguei pra ela, que me contou as boas novas: vai construir uma horta, e estava organizando uma visita à Bienal do Livro, em Olinda (cá comigo, fiquei pensando: que merda, não vão ter dinheiro pra comprar nem um exemplarzinho, do jeito que livro é caro neste país).
Saiu me dando notícias de um por um: pra sorte deles, mantiveram-na como professora da mesma turma, que teve o privilégio de tê-la como mestra não só da alfabetização, mas da primeira série. E TODOS os meninos, eu disse TODOS, sabem ler e escrever com fluência. “Eles são bons, Mari, são tão bons quanto os outros”, disse ela, se referindo aos alunos da escola particular. “Mas meu desafio com eles é maior e a recompensa, também”.
Desliguei com os olhos cheios d’água e o coração cantando. Não são muitos, são o que?, vinte crianças?, mas no meio de toda a pobreza que temos na escola pública brasileira, eles conseguiram encontrar um tesouro.
(Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 17 de outubro de 2005)

10.10.05

Beleza Fundamental


Tem certas coisas pras quais não tem jeito, eu me sinto sempre em carne-viva. Tipo, ouvir um dia de meu primo muito amado que tinha vergonha de andar comigo, anos atrás, quando eu era ainda mais gorda do que sou (e sou gorda, ainda).
Não lembro o termo que usou pra se referir a mim, mas acho que foi “monstruosa”. Isso ele falou aliviado, elogiando o fato de eu ter perdido mais de 40kg de lá pra cá (é...). Mas me doeu tanto, porque era uma coisa insuspeitada. E eu parei pra analisar como ele não andava realmente comigo em público, como ele tinha efetivamente vergonha. Não deixei de gostar dele, claro. Mas achei ele tão bobo, fiquei tão decepcionada! Porque nenhum traço físico jamais me impediu de andar com ou gostar de alguém. Dias depois ele comentou de uma moça cheinha que ele conheceu, mas não teve coragem de apresentar aos amigos. “Ela é linda, é um tesão, mas como eu vou com ela na praia?”, preocupava-se. Pra mim, essa classe de angústia nunca teve lugar...
Lembrei dessa história quando vi um recado num post logo aí abaixo, onde um gringo metido a livre-pensador (?) que não sei de onde apareceu me ‘xingou’ de gorda. Eu sou gorda, sim. E vou muito além disso. Graças a Deus sou uma mulher complicada. Sou múltipla. Cheia de paranóias mas de liberdade, também.Mesmo quando tinha mais de 120kg, nunca deixei de sair, de ver gente, de dançar. Nunca deixei de paquerar e ser paquerada. Fui casada por sete anos com alguém cheio de ‘poréns’, mas que nunca deixou de gostar de mim e de me dizer bonita. Eu tenho um amigo que sempre me disse que eu era a ‘ídola’ dele, por causa disso. Não conseguia entender como era possível, ficava realmente impressionado de me ver seduzir as pessoas, mesmo sendo completamente fora dos padrões de beleza. Bobo, ele, também.
Por que as pessoas têm que ter rótulos? Por que o ‘bonito’ deve ser alto, branco, magro e louro de olhos azuis? Me chamem de piegas e doida, mas o brilho do olho e o calor do abraço sempre foram critérios mais confiáveis, pra mim.
Eu sou feito cachorro e criança pequena, que se aconchega ao bom, e não ao que a estética diz que é belo.
Bela é a anca da minha avó, que pariu seis filhos. Belo é o sorriso sem dentes de Luiza. Bela é a falta de jeito de Bibiu, quando vai dar de comer a ela. Belo é o colar que fiz pra minha mãe, quando eu tinha cinco anos. Belas são as cicatrizes que carrego no corpo e na alma, mas que fazem de mim um ser humano único. Que pode ser melhorado, que eu sou mulher e vaidosa, ora essa. Mas que é belo, de forma intransitiva. Porque vive, ama e se faz amar.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 06 de outubro de 2005

Feliz Aniversário

Hoje seria o dia em que minha mãe completaria 60 anos, e a saudade parece que aperta mais.
Não é porque ela era minha mãe – todo mundo costuma gostar e sentir falta da sua, se ela não está mais consigo – mas eu tenho certeza de que o mundo se tornou um lugar mais pobre, com a ausência dela.

Este mundo, pelo menos. Porque se existir um céu, se existir algo melhor e mais bonito do que isso aqui onde a gente vive, ela com certeza se tornou uma peça querida, importante e fundamental por lá. Mas mamãe não me abandona, de jeito nenhum: vive nas minhas células, na minha lembrança, nos meus sonhos, no meu coração.


Neste 23 de setembro, quero celebrar minha mãe, de muitas formas. Ir a um restaurante comer rabada, ou comida árabe, ou pudim de clara. Ou berinjela no azeite, que ela amava e eu aprendi a gostar tanto quanto, depois de adulta. Ouvir Paulinho da Viola, ou Nara Leão. Usar lavanda da Yardley. Cuidar de algum velhinho, pegar algum bebê no colo. Fazer bolo de banana. Ler Agatha Christie. Comprar vários tecidos coloridos pra fazer uma única roupa. Viajar. Ir a uma peça muito boa de teatro. Sair na rua sem rumo, só pelo prazer de ver o mundo. Conversar muito com algum desconhecido no metrô. Fazer as coisas bobas e cotidianas em que ela costumava entregar sua alma, e nas quais deixou sua marca, para sempre.

Tenho muitas histórias para contar de minha mãe, e isso me consola. Mas hoje, que é um dia especial, quero lembrar de uma cena cinematográfica que vivi junto com ela, que sempre soube enxergar o essencial das coisas e das pessoas. A descrição segue abaixo, junto com um beijo de aniversário e uma rosa branca.


Um dia fui almoçar com mamãe, no trabalho dela. Eu adorava fazer isso, porque além de vê-la, filava a bóia: ela pagava a conta do restaurante, que tinha uma das comidas mais gostosas de Recife. Fomos, comemos, conversamos. E eu fiz, como a maioria dos meus amigos já devem ter visto, uma rosinha branca de papel com os guardanapos em cima da mesa. Nessa época, ainda era uma novidade...

Mamãe achou bonito e saiu do restaurante, de flor na mão, caminhando comigo pela Conde da Boa Vista, que é uma das avenidas mais movimentadas de lá – o equivalente da Rio Branco daqui do Rio, talvez?

De longe, eu vi um grupo de meninas de seus dez, doze anos se aproximando. Sujas, mendigas, maltrapilhas mesmo. Mais de uma com um tubo de cola na mão. Liguei meu radar: atenção, perigo. Mamãe sempre teve a teoria de que as meninas cheira-cola são mais perigosas que os meninos – não sei se leu algo em algum lugar, ou se era pelo fato óbvio de que nós, mulheres, somos mais imprevisíveis e afoitas.

Aí, começou a cena de cinema. As meninas abriram um riso largo (não sei se alguma conhecia minha mãe, notoriamente visada por ter a mania de distribuir lápis de cor e brinquedos entre os meninos de rua, que conhecia pelo nome), e uma veio de longe cantarolando Roberto Carlos: “receba as flores que lhe dou, em cada flor um beijo meu...” Mamãe riu de volta, fez um gesto galante e entregou a rosa. Pra mim, já era suficiente pra lembrar a cena pelo resto da vida, mas ela não terminou por aí. Como se tivessem ensaiado, as sete ou oito meninas cercaram minha mãe e encheram ela de abraços e beijos. Eu fiquei de boca aberta, encantada com a explosão de amor.

Foi quando duas colegas de trabalho de mamãe, que também voltavam do restaurante, passaram se cutucando e apontando: “nossa, olha lá que horror, Nagicina no meio das cheira-cola”. Mal terminou de falar, a primeira linguaruda levou um murro na boca. Correram trêmulas e chorosas para o banco, lamentando a violência deste mundo perdido.

Nesse dia, minha mãe me ensinou sem palavras que a gente, normalmente, recebe o que dá.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 23 de setembro de 2005.

Duas moças (o que é ser gente)


Uma vez, eu tinha 13 anos e minha mãe me mandou ir na venda do seu Domingues, lá em Candeias, comprar linha. Eu ia sempre muito puta da vida. O bar era um saco, cheio de pinguços esperando a vida passar. E eu lá, novinha, tímida, tinha que adentrar o ambiente e perguntar se tinha linha Corrente preta, “e só serve de algodão”. O atendente era homossexual, um travesti meio gordinho e bundudo chamado Filó, que usava um cabelinho feioso espichado à força e que era uma simpatia. Mas isso eu só soube depois.

Porque da primeira vez que fui lá na bodeguinha do Domingues, passei rápido e corri pro balcão e virei pra atendente e falei: “Moça, por favor, me dá um carretel de linha Corrente preta”. Era Filó. Ela largou todo o resto, todos os fregueses que tinham primazia no atendimento, o sorriso comendo o rosto, e veio me atender.

Claro que na hora eu vi que ela não era uma moça no conceito estrito da palavra. Mas Filó ficou tão contente, que na hora de ir embora, de linha na mão, eu olhei bem no olho dela – ELA sim, a alma de Filó era de mulher, pô! – e disse em alto e bom som: “Obrigada, MOÇA”. Com isso ela me amou pra sempre, e eu fiquei achando graça de ver como é fácil fazer um ser humano feliz.
Pena que ela não foi feliz por muito tempo: foi assassinada por um maluco homofóbico, que em menos de um mês matou três ‘filós’ na região. Como Filó era pobre, preto e bicha, tenho certeza de que até hoje ninguém descobriu o culpado.

Outra vez, eu era mais velhinha, tinha o que?, uns 19 anos. Estudava jornalismo. Estava voltando do centro do Recife, de uma matéria furada de um concurso de miss qualquer coisa que fui fazer num domingo à noite. Claro que a revista furreca onde eu tinha descolado o free-lance não me deu dinheiro pro táxi. E como eu morava longe e no domingo os ônibus acabavam mais cedo, acabei ficando isolada, sozinha, no centro da cidade.

Era mais de uma da manhã, e o maldito ônibus só passava às três. Me empoleirei na grade da parada do buzu "Candeias" velho de guerra, suspirei fundo e fiquei lá, quietinha, morrendo de sono. Aí, chegou uma puta.

Puta sim, vestida pra guerra. Feia, derrubada, a cara marcada com um talho de gilete. Daquelas bem esquisitas que fazem ponto na rua da Palma, no centro do Recife. “Boa noite, MOÇA”, eu falei pra ela. E ri.

Ela riu de volta, reclamou desses ônibus que demoram, e ficou calada. Daqui a pouco chegou um cara meio mal encarado, rondando. “Sai daqui, fulano, ela tá comigo”, rosnou a puta, mostrando a gilete pra ele. E ficou lá, tomando conta de mim feito um cão de guarda, esperando meu ônibus chegar. Mais de uma hora.

Adoro gente. De qualquer cor, de qualquer sexo, de qualquer classe social, de qualquer profissão. Gente é intransitivo. A única classificação a ser feita é a do caráter: ou presta, ou não presta!

Ponto.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 21 de setembro de 2005

Ela


Às vezes dói tanto, tão fundo, na minha carne, que eu faço de conta que nem lembro. Não lembro da voz dela, não lembro do cheiro, do perfume de lavanda que gostava de usar. Não lembro do olhar que me sabia inteira, sem precisar de uma só palavra. Não lembro da raiva que eu tinha quando fritava ovo e ela vinha direto com o garfo, comer minha gema. Não lembro das crises de riso que a gente tinha, às vezes no meio de uma briga ou tensão. Não lembro da ternura enorme que ela tinha de tomar conta dos outros – velho, bebê, passarinho. Não lembro da ira incontrolável que tomava conta dela, diante das injustiças reais ou imaginárias. Não lembro da inteligência rara, da ironia fina, da generosidade inata. Não lembro da fragilidade enorme, nem da fortaleza maior ainda. Não lembro como era bom dormir junto dela ou ficar na ponta do pé e tentar alcançá-la quando eu era menina, pensando em como ela era grande. Não lembro de como eu a senti pequenina, e como a quis proteger e não pude, depois de adulta. Não lembro das músicas que gostava de cantar. Não lembro das caras e olhares que ela fazia, e que eu me pego repetindo, em fotos ou diante do espelho. Não lembro de como eu sempre me senti amada, inteira, completa quando junto dela. Não lembro de senti-la em cada célula do meu corpo, meu cabelo, meu riso, meu coração. O que eu lembro é que minha mãe ia fazer 60 anos daqui a quatro dias. E por mais que ela esteja presente – sempre! – é dessa ausência que eu não consigo esquecer.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 19 de setembro de 2005

Indefinições


Alguém que quando pega num objeto, ele jamais volta pro lugar.
Esquizofrênica cuja auto-imagem oscila permanentemente entre Isabelle Adjani e Wilza Carla.
Fenômeno da ciência: mulher cuja TPM dura o mês inteiro e um pouco mais.
Ser humano em perpétuo estado de chatice transitiva.
Mafalda. Marimesq. Maribull. Mari-moe. Marilesa. Mula sem cabeça.
Eu mesma não sei quem sou.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 19 de setembro de 2005

Paquera


Supermercado lotado, oito da noite da quinta-feira, eu na fila do caixa. Sinto uma mãozinha puxando meu braço, olho e vejo um menino lourinho e sorridente, em pé dentro do carrinho de compras atrás do meu. É a cara de meu irmão Gabriel, quando criança. Cabelo bem clarinho e olhos castanhos. "Tu qué um?", oferece ele, com um pacote de biscoito na mão. Agradeço, e ele continua a puxar papo. Fuxica todas as minhas compras: gosta de leite de soja sabor laranja, e no carrinho dele tem bolo de laranja também, quer ver?, e exibe a laranja impressa no rótulo. Vai levar 'akut pra casa (yakult), adooora 'akut. Abre o desodorante pra eu cheirar. Conta da vida toda, da escola. Se chama 'axandivié (Alexandre Vilela), é enorme mas tem só quatro anos, e como Gabriel quando menino, troca letra quando fala. Está indo à fonoaudióloga, ela mandou fazer exercícios, soprar e fazer bolha, 'assim' (mostra pra mim). Fala rápido e errado e ninguém entende muito o que ele diz, por isso é bom que converse tanto comigo, sinto no olhar da mãe, satisfeita. O papo é tão alto e tão fluido e tão feliz, que o resto do pessoal da fila começa a rir. Na hora de ir embora me dá um beijo e convida pra fazer compras, semana que vem.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 09 de setembro de 2005

Scanning


(Inspirado em uma matéria da Revista Época)


Faz um tempo que li uma matéria sobre gente invisível, e fiquei chocada de ver como não se olham os outros seres humanos nos olhos. Tem gente que me acha doida, que confunde as coisas, mas eu procuro sempre estar inteira nesse contato. É algo que tenho desde sempre e que continuo levando adiante aqui no Rio. Sempre tento construir uma relação afetiva com o que me cerca, em cada pequena coisa. O cara que vende frios no supermercado sabe o tipo de queijo que gosto. A chinesa dona do self-service onde almoço nasceu em Kundun. O bebê da vendedora de pastilhas da saída da estação Uruguaiana teve impetigo, mas já foi ao pediatra. A japonesa do restaurante da rua de trás me encontrou no supermercado e ensinou como cozinhar lulas. O ascensorista do prédio da Espalhafato adora Agatha Christie e Sidney Sheldon. O vendedor de tapioca da Cinelândia é paraibano. O vendedor de bananas da esquina me vende fiado. Baixinho, o garçom do boteco de baixo do meu prédio, me chamou da rua um dia desses pra me dar um pedaço de bolo de aniversário. O atendente da pastelaria duas ruas à esquerda é cearense e primo do atendente da pastelaria duas ruas à direita. O garçom do Doradinho, na Cinelândia, já conhece meus amigos e não me serve mais de dois gengibres por noite, para eu não ficar bêbada. O rapaz que dirige o cybercafé aqui próximo - e que me deu dicas para conseguir acesso mais barato à internet - mora no meu prédio e se chama Gustavo. O cara que me vendeu minhas cortinas se chama Cláudio. O vendedor de presunto é Nelson. E o cozinheiro do samba que frequento é Chiclete. Por enxergar a cada um deles, minha vida é mais colorida e feliz.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 15 de agosto de 2005

Encontro


Ontem saí correndo, pra mais uma vez ir da Cinelândia até a Avenida Chile, onde fica o Centro Cultural da Caixa, sede do projeto que estou divulgando. Frio, escuro, meio chuviscando. Eu, sozinha, cruzando um viaduto. De repente vem um cara em minha direção, me olhando. Ih, ladrão? Quando chega bem pertinho, ele sorri e me dá uma cantada. Qual o conceito de vocês de cantada? Gostosa, tesuda, é a nora que mamãe pediu a Deus, vai ser boa assim lá em casa, ou 'shhhhhhhhhhhhhh', que é pior que qualquer palavra? Pois ele disse - 'Aê, branquinha, tu é linda, tu é linda mesmo, sacou? Vai com Deus'. E eu fui, ora. Rindo pra caramba.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 21 de julho de 2005

A boneca da titia e a boneca que a titia deu!


Quando eu era bebê, tive uma boneca preta. Era a coisa mais difícil do mundo, no Brasil de trinta anos atrás, mas minha tia Rosa viajou para o exterior e trouxe essa bonequinha pra mim. Era uma das minhas preferidas!

Depois fui crescendo, e vivia triste porque não tinha 'filhas' que parecessem comigo: 90% das bonecas eram louras, de olhos azuis. Sempre achei isso uma sacanagem, especialmente com as meninas negras, que precisam de um 'espelho' na hora de brincar. Aí, aos poucos, a pressão da sociedade e a ascensão de uma classe média negra brasileira fizeram os fabricantes passar a fornecer mais opções ao mercado. Hoje em dia, não são muitas, mas existem!

Sempre enlouqueço quando vejo uma bonequinha preta, e não sei se isso é resquício da minha pré-infância. Os amigos já sabem o que vou escolher, quando vou dar uma boneca de presente... Minha afilhada Bia já ganhou mais de uma - para horror da mãe, minha vizinha e amiga de adolescência Adriana, que, apesar de negra, acha mais bonitas as bonecas de olhos azuis.

Se tiver de escolher entre uma boneca preta e uma loura, compro a preta. É uma opção consciente, no sentido de que quero que cada vez mais a indústria venda e fabrique bonecas de todas as cores - mas é também porque, lá no fundo, as negras são as que eu gostaria de comprar pra mim!
Quando eu era casada com Adriano (que era negro), eu pensei por uns tempos em ter filhos e, conscientemente ou não, acabei comprando várias bonecas, que por mais de cinco anos ficaram guardadas, lacradinhas em suas caixas. Todas negras. Todas muito, muito lindas. Essas bonecas ficaram todas pra Luiza, minha bonequinha linda, que apesar de ser tão loura e de olhos tão azuis, vai crescer respeitando e reconhecendo o valor dos diversos tipos de beleza que existem no mundo.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 12 de julho de 2005

Cena da vida real


Saio hoje correndo do trabalho, tudo cinza, um frio e uma chuva de lascar. Páro no sinal da Rio Branco junto de um homem de seus 35, 40 anos: alto, sério, compenetrado, de terno e mala executiva na mão.
Na hora achei engraçado, porque o cara era negro e bem bonito (abafa!, não tava paquerando, só conferindo o material), mas tinha um cabelo cortado meio estranho, bem curtinho e com uns desenhos meio tribais atrás (o que me fez pensar numa pantera enjaulada ou que, melhor dizendo, ele ficaria muito melhor sem aquela roupa, mas deixa pra lá, isso é só assanhamento).
Olhei de rabo de olho e segui em frente. Três passos adiante emparelho com o moço, que está falando com alguém no celular. Ouço nitidamente: "Alguém já te disse que te ama hoje?" Olhei de novo pra ele, que não me parece mais sério nem compenetrado, só derretido. De repente, o dia ficou colorido e eu saí rindo sozinha. Tá, não foi pra mim que ele falou. Mas minha alma gostou de saber que neste mundo ainda tem gente que ama. E que liga pra dizer.
*Publicado originalmente no Sítio de Maricota, em 07 de julho de 2005

O caso da bolsa prateada (saudade de Nadja)


Fiquei muito triste com uma notícia que recebi de Recife: hoje será a missa de sétimo dia de Nadja, a encarregada de limpeza da Folha de Pernambuco. O susto que tomei de saber deve certamente ter sido menor que o de meus ex-colegas de redação, porque ela passou mal no trabalho, teve um ataque cardíaco, ainda conseguiu ser reanimada, mas não resistiu.

Tinha que morrer do coração: o dela era grande, junto com o riso, a bunda, o senso de humor. Lembro que quando cheguei na Folha ela ficou meio desconfiada pro meu lado, e um dia ficou meio puta porque fui fazer matéria com um tênis mal-assombrado que juntou lama na sola e sujou continuamente a redação - nós de Grande Recife sempre demos mais trabalho a ela...

Depois ficou minha amiga, e protagonizou cenas hilárias, como o São João de 2004, quando nos empanturramos juntas de bolo, e uma vez que apareceu um cocô gigante na privada do banheiro feminino e foi tanta propaganda, que até os homens se organizaram em excursão pra conferir o calibre do bicho (nossa!).

Por causa de Nadja, eu cometi um ato que talvez possa ser considerado reprovável, mas do qual hoje mais que nunca me alegro, e vou partilhar com vocês.

No Natal de 2003, nossa colega da coluna Social, Paula Imperiano, recebeu dezenas de mimos variados e resolveu distribuir parte com a redação - nós de Grande Recife vibramos, porque quem é de Economia recebe caderninho e celular de brinde, o povo de Programa ganha cd e dvd, mas nós, que fazemos matéria de cotidiano e de polícia, tínhamos que ficar satisfeitos de não ganhar nem tombo nem tiro.

Paula pegou então a listagem dos funcionários todos, que eram mais de cem, e botou dentro de uma caixa, e começou a tirar. Sorteou vinhos, agendas, sabonetes, cestas de chocolate... Tirou vários, depois cansou, pediu ajuda, eu me ofereci pra tirar. E eu fui sorteando, tentando não olhar, porque ela não dobrou os papeizinhos, que eram muitos e mínimos.

A uma certa altura, o prêmio era uma bolsa prateada, de sair à noite. Com o rabo do olho vi Nadja namorando a bolsa. Não deve ter sido coincidência meu olho bater no papelzinho escrito com o nome dela, entre dezenas de outros. A alegria dela foi muito maior que meu possível sentimento de culpa: ninguém ali queria ou merecia mais esse presente do que Nadja!

Depois ela me contou sobre o reveillón e como a bolsa fez sucesso. E eu guardei esse segredo até agora, que soube da partida dela. Agora ela não precisa mais da 'minha' bolsa: com certeza Nadja tem muitos atributos melhores pra frequentar as festas no Céu.


*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 24 de junho de 2005

Amigo Gato


Hoje tomei coragem e, depois de quase vinte dias de ausência, fui nadar. Tinha passado o dia enfiada em casa e olhar a rua parecia algo novo, diferente. Saí meio atrasada, ainda achei de ajudar uma velhinha muito velhinha que pegou o ônibus errado e tava perdida em frente ao Pinel, e vim correndo pra piscina. Lá chegando, bem no portão de entrada, tinha um gato. No campus da UFRJ da Praia Vermelha tem muitos gatos, e quem me conhece sabe que eu não vejo a menor graça nesses felinos. Mas esse gato - rajado, feioso e viralata - tava parado no muro, na altura do meu rosto, e me encarou. Eu devolvi o olhar e ficamos nos mirando por quase um minuto, completamente parados. Aí eu peguei um papel amassado que tinha na mão e botei em cima do muro. O gato fez uma cara engraçada e veio cheirar o papel, depois se esfregou na minha mão. Fiquei lá alisando ele, por outro bom minuto, pensando com ternura como é bom a gente trocar carinho, mesmo com um GATO! Dei tchau pro novo amigo e entrei na área da piscina, onde a professora me olhava com uma cara meio estranha, embora sorrindo. Depois eu soube que, dos quase vinte gatos que perambulam na área, aquele é o mais arisco, o que nunca chega perto de ninguém, porque já foi maltratado e tem trauma de seres humanos.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 23 de maio de 2005

Para Luiz Eduardo


Fecha os olhos, Dudu. Esquece que hoje é dia de festa e fica quietinho em algum lugar bem silencioso – no quarto, na beira da praia, embaixo de uma árvore. Sente o vento soprando, o sol que ilumina nós dois, mesmo com tanto chão entre a gente. Não ouve com as orelhas, mas com o coração, e você vai ver que estou aí pertinho. Abre os braços e recebe o abraço que mando pelo vento, o beijo grande que quero te dar, festejando o dia em que Deus te botou no mundo. Saudade, meu lindo. Parabéns por você.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 03 de maio de 2005

Eu atraio doidos


Minha santa mãezinha me ensinou a ser educada e tratar bem crianças, idosos e malucos; vai que é por isso que esses últimos gostam tanto de mim! Tenho vários relatos envolvendo doidinhos, nos últimos tempos. Tomem nota:

1) Novembro de 2004. Estou na frente da C&A da Tijuca, esperando um amigo que se atrasou. Chega um cara de meia-idade com ar de maluco, cabelo lambido repartido de lado, bermudão puxado até os peitos. Chega rindo com cara de idiota e me estende a mão pra apertar. Eu, com pena, aperto. Aí ele segura, encara e pergunta: “Qual seu telefone?”

2) Janeiro de 2005. Vou andando com Queops na Avenida Dezessete de Agosto, em Recife. A uns 30 metros, avisto um cara todo sujo, falando sozinho, surtado. De repente o olhar dele se ilumina: me viu. Estou do lado da rua, passo pra dentro, pra me proteger. Ele muda de direção. Volto pra rua, ele troca outra vez. Começo a ficar meio desesperada porque a cara dele é de quem tá tendo alguma idéia de jerico. Olho pra Queops com desespero mas ele não parece estar percebendo nada. No último minuto, o doidinho cria juízo, vê que Queops é um negão de 1,90m e que ele pode apanhar, se se meter comigo. Eu olho e vejo Queops rindo: tinha acompanhado a cena toda, desde o começo. “Tua energia é tão boa que até os malucos sentem”, me consola.

3) Fevereiro de 2005. Vou pro Garagem, em Recife, com uma turma de amigos, entre eles um tal de Mazela que pode até não ser muito doido, mas tava bêbado e inconveniente. O caba me chama pra dançar, e eu vou, na minha mania de achar que é falta de educação se negar uma dança. Mazela engatou uma rumba doida e ridícula e eu quase morro de vergonha, depois ficou meio que dando em cima... Foi tão terrível que o pessoal desandou a zoar da minha cara – até hoje;

4) Abril de 2005: pego o metrô com Nininho, eu sentada, ele em pé. Na fila de defronte está um velho de, pelo menos, oitenta anos, cara enrugada, calça de tergal, cabelo com gomalina. Quando me distraio e olho pra ele, tomo um susto: o homem faz “shhhhhhhhh” com a boca e mexe a língua de maneira lasciva. Fico roxa, sem saber o que fazer. Se fosse um cara novo, eu podia até tomar outro tipo de atitude, mas ser cantada por aquele avô me desconcerta. “Fica na minha frente, fica na minha frente”, imploro a Nininho, que faz que não entende – depois percebo que está acompanhando a cena toda pelo reflexo do vidro, morrendo de rir. Acaba ficando com pena e bloqueando a visão do véio tarado, que muda de alvo para uma menininha de uns 14 anos, que estava indo pra escola. A pobre não agüenta e desce na parada seguinte;

5) Mesmo mês. Como vocês leram, estávamos eu e Eva chegando em Niterói, após eu passar o dia brincando que queria pegar o ímã dela pros homens. Foi só eu descer do ônibus, que um cara que tava parado na esquina veio falar comigo: “Aí brother, como é a gente fazemos pra trocar umas idéias?” E encarnou um tempão no meu pé;

6) Ontem. Fui pro Shopping da Tijuca jogar conversa fora e comer bolinho de bacalhau. Já no metrô, o prenúncio da loucura: do nada, uma velha com ar de maluca começa a brigar com um senhor do outro lado, chamando ele de tarado, sem vergonha, “tá olhando pra mim porque?” O homem manda ela se dar ao respeito, levanta indignado e desce do vagão. Aí.... ela levanta também, com um sorriso diabólico... e desce do vagão atrás dele!!! Quando chego no shopping, sento na praça de alimentação e quando vejo, tem um cara estranho na mesa de trás, um coroa esquisito fazendo caras e bocas. Eu fiquei imediatamente fascinada com aquela figura troncha – não paquerando com ele, mas paralisada com a capacidade dele ficar olhando daquele jeito uma mulher que aparentemente tava acompanhada por outro homem.
Sei que não era pra ter olhado mais e que ele iria interpretar minha reação como um incentivo, mas quando eu via, tava olhando pro Zé Bonitinho de plantão. O pior foi agüentar a gréia do menino que tava comigo, dizendo que eu dei mole pro homem e que ele tinha ganhado um atestado de corno.
Afe! Que faço da minha vida?

*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 03 de maio de 2005

Chove, chuva


Não sei vocês, mas eu desde pequenininha adoro tomar banho de chuva. Tirava a roupa e entrava embaixo da biqueira do telhado, quando morava na casa da minha infância nas Graças, onde comia goiaba no pé e criava uma multidão de galinhas. Até hoje eu sou assim. Acabo de chegar da rua, onde a chuva me surpreendeu batendo perna na São Clemente, sem que eu estivesse portando nenhum item possível de se estragar. Foi a glória: todo mundo correndo em busca de um guarda-chuva, e eu curtindo os pingos, a sensação de ter o mundo derretendo sobre mim, a liberdade imensa que é chapinhar nas poças de água e sentir o cabelo escorrer. Gosto tanto disso que quando morava em Casa Forte, olhava pra Nano assim que o céu ficava cinzento, e saíamos juntos na chuva, pra cantar e dançar.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 30 de abril de 2005.

Historinha boba de quem não tá conseguindo dormir


(Estrela é só um incêndio na solidão?)
Era uma vez uma estrela. Não era grande nem pequena, mas brilhava muito porque gostava de rir e cada vez que ria, deixava a lua com ciúme. O riso da estrela era uma coisa muito bonita de se ver, e as pessoas ficavam esperando que ele rasgasse o manto escuro do céu, iluminando os caminhos do mundo. Era um riso quente, quase como um raio de sol. Deixava as pessoas com vontade de escrever poesia e de cantar. E não se acabava nunca, porque sempre começava de novo depois do fim.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em abril de 2005

Em flor


Na praça de Casa Forte, pertinho de onde eu morava em Recife, existem quatro pés de uma árvore esquisita que eu nunca vi em outro lugar da cidade. Chama-se ‘abricó de macaco’ ou Couroupita guianensis, e dá uma flor vermelho-sangue bonita e com um cheiro peculiar, que eu acho bom (e umas frutas em forma de bola muito, muito fedorentas).

Tenho uma relação especial com aquelas árvores, porque elas viram minha mãe menina.
Quando ela era criança, brincava embaixo delas e usava o estame pra fazer de conta que era uma escovinha de barbear – uma vez, cortou o cabelo de todos os meninos da vizinhança. Quando vinha me visitar, mamãe parava o carro e ia apreciar as flores púrpura e rosa.

No dia em que mamãe morreu, na volta do cemitério, parei embaixo da árvore que ficava mais perto da casa onde ela morou quando pequena, e chorei abraçada ao tronco. Sinto como se ela fosse minha amiga, um ser perene, que viu minha mãe nascer e verá meus filhos crescerem, um dia. Quero enterrar o umbigo do filho que eu tiver na raiz daquela árvore, pra que ele de alguma forma dê continuidade a essa história.

Pois bem: quando cheguei aqui no Rio, tomei um susto. Sei que vão dizer que é coincidência, que talvez eu não tenha prestado atenção e que existem 'abricós de macaco' espalhados pelo Recife. Mas aquelas árvores, raras na minha cidade natal, aqui me surpreendem nos lugares mais variados: na esquina de casa, na ginástica, nas praças e ruas por onde passe. Cada vez que isso acontece, meu coração fica em flor: é mais um jeito que mamãe encontra de estar perto de mim.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em abril de 2005