1.9.06

Historinha adolescente


Um dia, minha vizinha e amiga de infância sonhou com um número de telefone desconhecido: o prefixo era 361, o do nosso bairro. Sonhou que era o número de um rapaz lindo e charmoso. Mas logo ela, a criatura mais atirada que eu já conheci, não teve coragem de telefonar pra checar. Do alto dos meus 15 anos, tinindo de atrevimento e falta de juízo, liguei eu.
“Boa tarde, moça”, disse à mulher que atendeu. “É que o rapaz que mora aí me deu esse número, mas eu esqueci o nome dele”. “Ah, Marconi”, falou ela, sem a menor desconfiança. “Um momentinho que já vou chamar”. E foi. E ele atendeu. E eu, no maior desplante, depois de dez minutos de conversa – “oi, Marconi, tudo bem?” – contei a ele a história maluca inteira. Marconi tinha 17 anos e não sei se acreditou, mas claro que ficou curioso. Depois de mais uns dois telefonemas (minha amiga sempre sem querer falar com ele, morta de vergonha), marcamos de nos encontrarmos.Não lembro onde combinamos – se na Jan-Ju, a sorveteria do bairro onde tudo acontecia; se na praia; se no shopping; se no próprio prédio. Eu fui, como intérprete do casal. Minha amiga cheia de dedos, roxa, como se fosse morrer.
Marconi tinha espinhas, era gordinho, cara de bom rapaz, e mais eu não lembro agora. Não parecia com o rapaz do sonho e ela se desinteressou dele - que não chegou a se interessar por ela, mas botou logo o olho em mim.Este poderia ser o início de uma linda história de amor, mas Marconi, tadinho, não sabia por onde começar. Passou dias e dias me ensinando a jogar vinte-e-um, relancinho, todos os jogos do baralho. Nunca arriscou nem a pegar na minha mão. E eu, malvada que sou, aficcionada que sou por homens severgonhos (dá uma tese, longas histórias), aos poucos comecei a fugir do rapaz, de um jeito tão natural que até hoje não sei dizer como Marconi sumiu.Fico aqui pensando, se ao invés de telefonar, a gente não devia ter jogado no bicho...

Publicado originalmente no Sítio de Maricota, em 27 de maio de 2006.

Mignon


Às vezes daria qualquer coisa pra ter 1,60m, 40kg, calçar e vestir 36, e ser uma mocinha delicada em vez dessa coisa estrompa que vos fala, e que tem por principal característica o fato de ser grande e mesmo assim não caber em si. Eu ia ser loura, de olhos azuis, do tipo ninfa-transparente-a-ponto-de-quebrar, e me chamar Larissa. Larissa é meu alter-ego, meu desejo secreto de ser frágil e feminina, no que o feminino tem de mais estereotipado.
Eu sei, existem diversos tipos de beleza e de mulheres no mundo. Mas às vezes a gente se chateia de ser superlativa: eu sou grandONA, bonitONA, tenho peitÃO, pezÃO, mãozONA, cada lapa de osso que vou te contar, e nem que eu emagreça tudo que tenho que emagrecer no dia que Deus quiser, não vou jamais ser pequenina. Esbarro nas coisas, derrubo tudo, porque confesso que não sei calcular bem o espaço que ocupo no mundo. Ô, mulher desajeitada! Quando era pequena queria fazer balé, mas hoje acho que seria uma avestruz no meio dos pintinhos...
Ninguém me dá colo; todos me acham ‘forte’. E a gente vai tentando ser ‘forte’ e dar colo aos outros, porque é o jeito e é o que esperam de nós. Uma vez, eu tive um namorado muito maior do que eu, e que me fazia me sentir menina junto dele. Numa das primeiras vezes que me viu, pra medir força, me levantou no ar por quase um minuto: foi a maneira que achou de me desafiar e eu tive muita raiva, mas por outro lado, gostei de me sentir indefesa, uma vez na vida...
Tá, ser grande tem suas vantagens. Até hoje nenhum trombadinha de rua se meteu comigo e eu alcanço os produtos da última prateleira do supermercado. Mas imprenso meu joelho no banco de trás do carro, não acho roupa e sapato em qualquer lugar, e me irrito por não conseguir passar despercebida. Qualquer referência – mesmo que na intenção de elogio - a qualquer parte ‘superlativa’ de mim pode facilmente me magoar, por ser verdade e não-modificável. E eu me sinto mal por ser tão boba e sensível.
Graças a Deus que não é todo dia em que me sinto assim. Às vezes, agradeço cada milímetro de mim. Eu duvido que minha alma funcionasse igual, dentro da carcaça de Larissa.
Publicado originalmente no Sítio de Maricota, em 29 de abril de 2006.

Em memória de um elefante

“Fabrico um elefante de meus poucos recursos. Um tanto de madeira tirado a velhos móveis talvez lhe dê apoio. E o encho de algodão, de paina, de doçura” – Carlos Drummond de Andrade Eu já vi tubarões amestrados, formigas gigantes, caranguejos dançarinos, jacarés no guarda-roupa, lobos que se disfarçavam de chinelo. Eu já criei sapos numa gamela de barro, construí uma cidade no quintal, cavei um buraco de três metros de fundura e lá enterrei todos os meus míseros brincos e anéis. Minha infância foi uma festa preciosa de sofrimento e magia, durante a qual fui podada em muitas coisas, mas nunca na imaginação. A presença do meu pai quando criança também era uma coisa complicada, Sama, e minha mãe achava que Papai Noel era uma invenção pequeno burguesa, mas ao ler a tua história senti pena dos adultos que matam a infância em si e nos outros, e que não sabem rir, e que não sabem enxergar com os olhos de ver. Será que uma dose maciça de Chagall, Amélie Poulain e García Marquez ajudam? Ou será que eles estão destinados à pobreza de ver apenas com os olhos da cara? Que bom que você ainda lembra do elefante, e que ele era azul, e se fez memória e história. Que bom que mesmo te faltando o pedaço tirado pelo beliscão, você é assim tão grande. Um beijo.
Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 11 de janeiro de 2006.

Delicadeza


Passei pela sala com a juba em crise, esse meu cabelo maluco que eu só desembaraço mal e mal quando lavo, e que freqüentemente fica parecendo um vespeiro. “Vem cá”, ele falou pra mim. E me fez sentar em frente dele, feito uma menininha. E pegou um troço pequenino, imprestável, e passou uns quinze minutos dedicado à tarefa inglória de desembaraçar ela, a moita, com aquela escovinha mísera. Quase que eu disse “não”, diante do presente inesperado que me fez sentir como se tivesse cinco anos. Depois, me entreguei à experiência inesquecível. Foi como uma bênção, carinho escorrendo em cada madeixa e fluindo através de duas mãos grandes, estabanadas e levíssimas - como se ele beijasse cada pedacinho de mim.

Publicada originalmente no Sítio de Maricota, em 09 de janeiro de 2006.

Mais um vexame

Vim pra Guamirim, distrito de Irati, município a 2h30 de distância de Curitiba, participar da formatura do Cedejor. O vôo saía às 7h do Galeão, acordei antes das seis, cansada por duas noites mal-dormidas seguidas, e segui pro aeroporto. Lá, descobri que deu o tilt no avião; depois de muita espera e nenhuma informação, o vôo acabou saindo - às 10h, horário em que supostamente eu estaria chegando em Curitiba. Lá, no aeroporto, seu Osmar me esperava. Seu Osmar é motorista da Localiza e foi o premiado pra me levar a Irati, esperar até nove da noite, e me levar de volta a Curitiba, de onde vou pro Rio, amanhã. É um senhor baixinho, de boa cara, de jeito formal e ar educado como a maioria das pessoas do Sul que tenho conhecido nos últimos meses. Conversei com ele uns dez minutos, e prontamente caí no sono, deixando de apreciar a paisagem tão bonita das estradas paranaenses. Sabem aquele tipo de sono esquisito, em que você está quase acordada e mistura as coisas? De repente, eu estava indo para Guamirim, distrito de Irati, município a 2h30 de distância de Curitiba, participar da formatura do Cedejor. Seu Osmar estava dirigindo o carro, um homem de idade ia sentado na frente, atrás vinha outro cara e, junto de mim, uma adolescente com os cabelos mais vermelhos que eu já vi. E eles conversavam, e faziam comentários sobre mim (seriam o Ego, o Id e o Superego? Três entidades espirituais? Sei lá da minha vida). A menina era a pior de todos, ria muito do fato de eu estar dormindo enquanto o mundo à minha volta fervilhava. Eu olhava pra mim "de fora", vendo a cena toda. Teve uma hora que os comentários foram piores e eu - no sonho? -, mesmo de olhos fechados e balbuciando, xinguei a danada de tudo que foi nome. Quem me conhece sabe - eu rio, falo, faço careta quando estou dormindo. Quando acordei, não sei não, mas achei seu Osmar com a cara meio esquisita.
Publicado originalmente no Sítio de Maricota, em 09 de dezembro de 2005

4.6.06

Banzo


Parece que quando você passa muito tempo fora, o familiar se torna estranho. Olho pra Recife e não me reconheço, e isso me deixa infeliz. Os lugares que frequentava não existem mais, ou já não prestam; e isso vale do supermercado ao barzinho. Tudo é uma experiência meio nova, embora nem sempre ruim, devo ressaltar. A cidade me invade pelos cinco sentidos. O ar de Recife é mais fino, a claridade dói na vista, o céu é quase branco, lavado. O cheiro de mangue, de jambo, dos jasmins de Olinda chega em mim fisicamente, quase como uma pancada. Aqui sinto a seda prateada dos cabelos da minha avó que não me reconhece mais, o cetim da pele de Luiza que está me estranhando menos, e a maciez de outros braços e abraços que me apertam com gosto. Aqui como o pudim de Julia, o risoto de Dadá, a tapioca da Sé, e engulo a saudade. Ouço o sotaque cantado dos meus conterrâneos, que me soa mais alto, mais aberto, mais luminoso que nunca, e as risadas dos meus amigos tilintam como sinos. Felicidade agridoce, essa, de passar dez dias como um relâmpago num lugar onde não tenho mais lugar, mas que é meu lar eternamente.

Publicado originalmente no Sítio de Maricota, em 17 de novembro de 2005.

Angústia


Eu machuco sem querer quem está por perto, eu me machuco de ver os outros se machucarem, eu me desespero e nem sei o motivo de estar desesperada, eu não sei nada de mim que possa usar como desculpa, eu sou um porco espinho que precisa muito de abraços.

Postado no Sítio de Maricota, em 03 de novembro de 2005.

5.1.06

Mariana "Rossi" - ou Meus Fãs Garçons - ou Caboco só desce com destilado

Eu não sei o que acontece, mas se tem uma categoria de gente que gosta de mim, são os garçons.

Um dos mais queridos se chama Pereira, e trabalha, ou trabalhava, no Garrafus (ô nome feio, mas dizem que tem história) – bar do lendário
Sama, que fica bem pertinho da minha casa em Recife, e era um pouco minha casa, também. Pereira sempre abria o sorrisão quando me via, e perguntava: "o de sempre, Mari?" - e me trazia uma coca-light e um caldinho de feijão.Toda quinta eu batia ponto no Garrafus, por causa da Quinta do Jazz, evento promovido pelos queridos Evandro e Thelmo e freqüentado por gente linda como meu amigo Orlando. Meus últimos ‘eventos’ em Recife – aniversário, despedida – foram todos no Garrafus.


Eu só fui entender como Pereira se importava comigo no fim do ano passado, quando passei uns dias na terrinha e enlouqueci de alegria. Era aniversário de minha amiga Andreza e tomei sete (sete!) capiroscas de vodca. Aí Pereira se desesperou quando me viu lá, malemolente e cheia de falta de juízo nas idéias. "Mari, tá dirigindo?", perguntou na quarta ou quinta dose. Quando soube que não, trouxe mais duas e depois se negou a servir mais. Não adiantou chantagear - "Pereira, vossssscê é o garxom, vôdedar vosssscê pra Tonho (Tonho é o irmão e sócio de Sama), onde xxá se ffviu deixxxar de trager o que o cliente isssssstá pedindo?" Não teve argumento. Graças a isso, eu voltei pra casa cambaleando, me segurando nos postes, mas ainda consciente dos meus atos. Quer dizer, mais ou menos. Isso só aconteceu depois da bateria da escola de samba ter ido embora (o que não me impediu de requebrar mais um dez minutos, por inércia), de eu ter enchido o saco de Tonho pra tocar "I will survive", de eu ter sentado numa mesa com completos desconhecidos que portavam uma zabumba e um pandeiro e ter puxado, cantado e dançado toooooooodos os cocos e cirandas que meus neurônios em combustão conseguiram lembrar... Vergonha total, eu sei, mas enfim, nenhum cachorro lambeu minha boca e, ao que eu me lembre, ainda posso voltar no Garrafus sem maiores sofrimentos e sem risco de ser linchada...

Outro garçom meu amigo é Baixinho, pedaço de cearense de um metro e meio que trabalha no Sonho Lindo, um pé-sujo que fica embaixo do meu prédio. Abre o riso quando me vê, toda manhã, e me dá bom-dia. À noite, se for o caso, ele dá o alarme: “não come isso não”, sussurra, se eu resolver pedir algum salgado que já foi produzido há muito tempo e está adquirindo coloração duvidosa. Quando eu volto das baladas, larga qualquer cliente pra me vender água ou coca-cola (é notório, não gosto de cerveja). E um dia desses me deu a maior prova de amor: me chamou correndo da rua, “ei, ei!”, e enfiou um taco de bolo de chocolate na minha boca – “prova aí, vê se tá bom!”A Cinelândia, aqui no Rio, virou minha casa, graças a Duda e a Nininho, que me apresentaram ao Doradinho, que tem um espetinho legal e um banheiro pavoroso, onde as baratas morrem ao entrar (não sei se afogadas, não sei se pelo cheiro – e não sei como é que eu tenho coragem de dizer que gosto da comida de um lugar que tem um banheiro desses, mas gosto). Lá tem seu Amaro, conterrâneo que só me chama de ‘princesa’ e grita de longe "já chegaram" ou "não tão aqui ainda não", pra avisar da presença ou ausência de meus pariceiros. Quando eu não vou, pergunta por mim. E já aprendeu a não me servir mais de duas doses de gengibre por noite (é um troço à base de cachaça que desce quente; a primeira dose torna a fala mole, a segunda deixa o nariz dormente, e a terceira me faz querer ficar apostando coisas com meus amigos desesperados – quer ver como eu vou naquela mesa, dizer àquele cara que ele é gostoso?, quer ver como eu vou dançar conga-la-conga em cima da tampa daquele bueiro? – ou então entrar em crise existencial – ninguém me dá atenção, ninguém gosta de mim...).

Esses são os que me protegem da birita. Porque há os que me ajudam a cair na esparrela. E com a minha cara de pau, que tá se tornando cada dia mais notória, venho me tornando uma expert em conseguir bebida grátis. Curioso é que elas sempre têm nomes exóticos: a batida de vodca com leite condensado e licor de banana do Teatro Odisséia se chama King Kong, a mistura de vodca com limonada e licor de menta do Negro Gato se chama Diabo Verde. A primeira eu tomei no show da Comadre Fulozinha, no ano passado. Fui pedindo ‘complemento’ de vodca, na maior cara dura, e o garçom achou tão engraçado que ia pondo gelo e vodca, vodca e gelo, e no fim eu não sentia mais gosto nenhum de banana no negócio – mas também não sentia muitas outras coisas, incluindo o chão que pisava, mas abafa a história.
A segunda eu tomei dia 21 de outubro, numa festa de minha amiga Kitty. Pedi lá o troço – caro, visse?, quase dez paus – e me vem uma coisa fosforecente, linda. Quando boto na boca, quase cuspo: que gosto arretado de close-up! Reclamei, claro. Aí o garçom fez um ar de riso, trouxe uma dose nova não tão carregada no licor, mas ainda assim péssima, e o resultado é que passei a noite falando mal e fazendo a bicha render ("traz mais gelo!"). Pensem que nem assim o garçom ficou com raiva de mim! Desceu até a rua quando fui embora (pra ter certeza de que eu não ia voltar?, vai saber), apertou a minha mão e por fim ainda soltou um "tchau, Mari" – e eu nem sabia que ele sabia meu nome! O último deles é garçom de uma casa de shows cujo nome não vou dizer, porque vai que o dono entra aqui no brógui, hehehe. Lá vende uma cachaça de banana caramelada que é simplesmente deliciosa (Evandro e Zé Vaz, dois puristas, são capazes de bater em mim por eu ventilar tais preferências). Já é a terceira vez que vou lá e morro de vergonha: o rapaz vem, cumprimenta, finge que anota e me traz a bebida de graça! Como cada dose custa mais de cinco contos, desconfio que o caba esteja a fim de me ver de pilequinho, mas enfim, não tenho certeza. Da primeira vez, ainda perguntou se sou parente de fulano, dono do bar. Certo de que não sou, é só correr pro abraço: serve a cachaça na cara dura, pra espanto de outros amigos que freqüentam o lugar há anos e nunca tiveram direito a tal cortesia.


Eu posso!

Eu mereço!

(Publicado originalmente no Sítio de Maricota, em 03 de novembro de 2005)

20.12.05

Abraço inesquecível

O Orkut é uma completa perda de tempo, mas tem coisas que conseguimos através dele que não têm preço. Como localizar esse menininho louro da foto. Que hoje é um homão quase sem cabelo, casadíssimo e muito simpático, que eu achei do nada, numa comunidade sobre meu antigo colégio, o Lubienska.

Miltinho, Mônica e Guilherme eram nossos vizinhos na casa das Graças, onde vivi dos meus sete aos dez anos. Dá pra escrever um mês inteiro, só contando nossas peripécias. Mas hoje eu quero falar só de Miltinho, que eu acho que foi de certa forma meu primeiro namorado. Calma!, nunca demos beijo na boca nem pensamos em nada do gênero. Sei lá também se é o caso de usar esse rótulo pra descrever o que a gente fazia. Eu era uma menina tão menina, tão desinteressada de certas coisas... Enfim, vou explicar!
É que olhando pra essa carinha da foto, eu lembrei de uma das nossas brincadeiras preferidas, que se chamava 'pai e mãe'. Eu era a mãe, ele era o pai, meu irmão Gabriel e Mônica, a irmã dele, eram os filhos. Não sei por que motivo Guilherme, o irmão Lithg mais velho, não participava da "família", já que ele sempre integrava as brincadeiras; acho que ela não acontecia todo dia, nem todo tempo, e talvez nesse período ele tenha ficado de recuperação no colégio, por exemplo. Ou estivesse com papeira (caxumba) ou alguma outra mazela normal de criança.
'Pai e mãe' era assim: a gente pegava um lençol grandão, forrava no oitão da minha casa, e deitava todo mundo juntinho. Eu tinha uns oito anos e não fazia a menor idéia de como a abelhinha polinizava as flores e outras histórias que depois li no livro De onde vêm os bebês. 'Pai e mãe' não era brincadeira de médico: a gente não estava interessado nas diferenças e sensações corpóreas. O bom era só deitar a cabeça no braço de Miltinho e ficar quietinha olhando um sabiá grandão que toda tarde vinha cantar, no pé de manga rosa.
Era uma sensação muito boa, de estar protegida e acarinhada. Tão doce, que eu guardo a lembrança até hoje. Eu, que não tive contato semelhante com meu próprio pai, devo ter valorizado muito mais esses momentos que Miltinho - que era mais novo que eu alguns meses, meio estabanado e maluco, escrevedor de poesia e inventor de brincadeiras e travessuras terríveis.
Mesmo tendo passado mais de 20 anos sem ter o menor contato com eles, tenho pelos três irmãos Lithg um carinho enorme. Mas o abraço de Miltinho o faz especial, pro resto da vida.
(Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 27 de outubro de 2005)

Gracinha

O suporte à informática aqui do trabalho é meio lento, e eu sou irritadinha por vida. Quando cheguei, solicitei que me instalassem vários softwares, entre eles o dicionário Aurélio. Quase um mês pra resolverem o pepino. Aí viajo, e quando volto... tinham trocado minha máquina! E eu precisava instalar tudo de novo! Liguei pro número do suporte em São Paulo (é, é uma burocracia só) e anotei um número de chamada (de praxe).
Hoje de manhã, cinco dias depois do pedido inicial, telefona Eduardo, o técnico local. “Tudo bom, Mariana?” (é, ele já me conhece...) Me pede pra habilitar o WinVnc, um programinha que permite que ele visualize à distância meu desktop, que está em rede com a máquina dele, em algum lugar deste prédio enorme.
Nessa hora toca o celular, eu atendo, deixo ele trabalhando sozinho... Aí vejo o ícone do Aurélio abrindo, pego o telefone e agradeço. Quando vou fechar o programa, tá lá o verbete aberto, piscando diante dos meus olhos...

Paciência[Do lat. patientia.]
S. f.1. Qualidade de paciente.
2. Virtude que consiste em suportar as dores, incômodos, infortúnios, etc., sem queixas e com resignação.
3. Perseverança tranqüila.
4. Conformação abúlica e indolente; pachorra.
5. Entretenimento que consiste em reunir as peças separadas de um mosaico para formar uma figura.
6. Passatempo para uma só pessoa, no qual se fazem diferentes combinações com cartas de baralho, seguindo determinadas regras.
7. Bot. Planta da família das poligonáceas (Rumex patientia).

(Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 06 de outubro de 2005)

17.12.05

Fome de quê?


O post abaixo fez sucesso - Giselli riu pra caramba e Luciana mandou pros amigos lerem. Aproveitamos nossa hora de almoço pra discutir filosoficamente o assunto e chegamos à conclusão que o negócio é demonstrar ATENÇÃO e VONTADE. Claro que um cara 'esguelado', que olha só pra comida e nem um pouco pra você, não merece ser levado em consideração. Mas alguém que pega no garfo com firmeza, se mostra interessado na refeição e na companhia (é possível se concentrar em mais de uma coisa), deve ser visto com mais atenção...
Lu foi incisiva em dizer que isso não tem nada a ver com falta de boas maneiras, e que homem que arrota, não limpa a cara e fala de boca cheia também não tá com nada. "O que me angustia são aqueles caras que parecem ter cinco anos, botam dois grãos de arroz no prato e comem sem vontade, sem decisão", comentou horrorizada. A palavra-chave parece ser essa, rapazes: DECISÃO, fome que é também de vida! Mostrar-se inteiro, concentrado, também nessa hora. Entregue ao prazer - vixe, que a gente quando passa muiiito tempo em privação, sem ter o que comer, começa a delirar, afemaria, abafa o caso. Parte da graça da coisa, como explica minha guru Luciana, é ver esse impulso vital ser posto em prática e, no fim, presenciar o rapaz sereno... saciado. Hum, tá! Vamos mudar de assunto, que eu ando sem companhia pra jantar?
Pra encerrar o tema, direi que só tem mais uma coisinha sobre a qual concordamos: não dá pra suportar um homem que come menos que a gente. Por diversos motivos. Da humilhação de se sentir um caminhoneiro diante dele, à suspeita de que a festa vai acabar antes da gente estar satisfeita. E tenho dito!
Ps-Os homens também têm sua opinião sobre o tema... Vide o mestre
Xico Sá!
(Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 19 de outubro de 2005)

Apetite


Hora do almoço, ontem, no trabalho. Vamos ao Abelhinha Light, pé-sujo a quilo aqui pertinho. É quando, não sei porque, entra-se na conversa de homem fresco pra comer. “Odeio homem assim, faço uma imediata associação sexual”, detona Lu, minha colega quietinha que de vez em quando tem umas tiradas surpreendentes. “Desenvolve”, peço a ela. “Mas isso é claro, né, Mariana? É um ótimo teste! Homem que pega no garfo delicadinho... que só bota no prato comida sem sal, tipo arroz com peito de frango... que come a mesma coisa todo dia... que não gosta de alho nem cebola, que puxa os verdinhos pro lado porque isso não come, porque é feio, é sujo, é ruim... homem que faz cara de nojo pra comida e não tem coragem de experimentar coisas novas... ah, um homem desses não pode ser bom de cama”. Tive um acesso de riso mas tenho que concordar: faz sentido.
(Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 19 de outubro de 2005)

Dia dos Professores

(Estes não são alunos dela - espero que tenham a sorte de ter uma professora parecida)

Com atraso, mas com carinho, deixo aqui um beijo pra minha amiga-irmã Idalina, através da qual homenageio todos aqueles que, na vida, resolveram ser professores de uma forma que honre o título. Dadá ensina a ler, ocupação que por si só já me fascina: como será ter a experiência de mostrar às crianças maneiras de desvendar novos mundos? Cada qual tem sua lógica, seu tempo, seu ritmo, e por isso eu imagino que não é uma tarefa nada monótona lidar com uma multidão de pestinhas, que a cobrem de afeto diariamente.
Dadá tem duas turmas. Uma, num colégio particular do Recife, que apesar de pagar mal aos funcionários já foi premiado pela metodologia inovadora de alfabetização, sendo considerado exemplo em construtivismo, novas perspectivas de educação e outros bichos. A outra turma é num colégio pobrezinho, da Prefeitura, para onde ela foi concursada há cerca de dois anos.
Eu ainda morava no Recife quando ela começou a trabalhar nessa escola. Parecia um furacão. A primeira providência foi fazer uma campanha com os amigos, providenciando escovas de dente para distribuir entre os alunos: alguns nunca tinham escovado os dentes (!), outros dividiam a escova com o restante da família (!), a maioria esmagadora não trocava a dita cuja há vários meses.
Quando vim pro Rio, ela me intimou até eu doar minha amada coleção de gibis da Mônica, pra que eles pudessem ter ao menos algo que ler. Dadá parece a formiga atômica, não pára quieta, não deixa de inventar um jeito novo de fazer os danadinhos pensarem – e saber pensar é a função mais nobre de um ser humano...
Pois semana passada liguei pra ela, que me contou as boas novas: vai construir uma horta, e estava organizando uma visita à Bienal do Livro, em Olinda (cá comigo, fiquei pensando: que merda, não vão ter dinheiro pra comprar nem um exemplarzinho, do jeito que livro é caro neste país).
Saiu me dando notícias de um por um: pra sorte deles, mantiveram-na como professora da mesma turma, que teve o privilégio de tê-la como mestra não só da alfabetização, mas da primeira série. E TODOS os meninos, eu disse TODOS, sabem ler e escrever com fluência. “Eles são bons, Mari, são tão bons quanto os outros”, disse ela, se referindo aos alunos da escola particular. “Mas meu desafio com eles é maior e a recompensa, também”.
Desliguei com os olhos cheios d’água e o coração cantando. Não são muitos, são o que?, vinte crianças?, mas no meio de toda a pobreza que temos na escola pública brasileira, eles conseguiram encontrar um tesouro.
(Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 17 de outubro de 2005)

10.10.05

Beleza Fundamental


Tem certas coisas pras quais não tem jeito, eu me sinto sempre em carne-viva. Tipo, ouvir um dia de meu primo muito amado que tinha vergonha de andar comigo, anos atrás, quando eu era ainda mais gorda do que sou (e sou gorda, ainda).
Não lembro o termo que usou pra se referir a mim, mas acho que foi “monstruosa”. Isso ele falou aliviado, elogiando o fato de eu ter perdido mais de 40kg de lá pra cá (é...). Mas me doeu tanto, porque era uma coisa insuspeitada. E eu parei pra analisar como ele não andava realmente comigo em público, como ele tinha efetivamente vergonha. Não deixei de gostar dele, claro. Mas achei ele tão bobo, fiquei tão decepcionada! Porque nenhum traço físico jamais me impediu de andar com ou gostar de alguém. Dias depois ele comentou de uma moça cheinha que ele conheceu, mas não teve coragem de apresentar aos amigos. “Ela é linda, é um tesão, mas como eu vou com ela na praia?”, preocupava-se. Pra mim, essa classe de angústia nunca teve lugar...
Lembrei dessa história quando vi um recado num post logo aí abaixo, onde um gringo metido a livre-pensador (?) que não sei de onde apareceu me ‘xingou’ de gorda. Eu sou gorda, sim. E vou muito além disso. Graças a Deus sou uma mulher complicada. Sou múltipla. Cheia de paranóias mas de liberdade, também.Mesmo quando tinha mais de 120kg, nunca deixei de sair, de ver gente, de dançar. Nunca deixei de paquerar e ser paquerada. Fui casada por sete anos com alguém cheio de ‘poréns’, mas que nunca deixou de gostar de mim e de me dizer bonita. Eu tenho um amigo que sempre me disse que eu era a ‘ídola’ dele, por causa disso. Não conseguia entender como era possível, ficava realmente impressionado de me ver seduzir as pessoas, mesmo sendo completamente fora dos padrões de beleza. Bobo, ele, também.
Por que as pessoas têm que ter rótulos? Por que o ‘bonito’ deve ser alto, branco, magro e louro de olhos azuis? Me chamem de piegas e doida, mas o brilho do olho e o calor do abraço sempre foram critérios mais confiáveis, pra mim.
Eu sou feito cachorro e criança pequena, que se aconchega ao bom, e não ao que a estética diz que é belo.
Bela é a anca da minha avó, que pariu seis filhos. Belo é o sorriso sem dentes de Luiza. Bela é a falta de jeito de Bibiu, quando vai dar de comer a ela. Belo é o colar que fiz pra minha mãe, quando eu tinha cinco anos. Belas são as cicatrizes que carrego no corpo e na alma, mas que fazem de mim um ser humano único. Que pode ser melhorado, que eu sou mulher e vaidosa, ora essa. Mas que é belo, de forma intransitiva. Porque vive, ama e se faz amar.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 06 de outubro de 2005

Feliz Aniversário

Hoje seria o dia em que minha mãe completaria 60 anos, e a saudade parece que aperta mais.
Não é porque ela era minha mãe – todo mundo costuma gostar e sentir falta da sua, se ela não está mais consigo – mas eu tenho certeza de que o mundo se tornou um lugar mais pobre, com a ausência dela.

Este mundo, pelo menos. Porque se existir um céu, se existir algo melhor e mais bonito do que isso aqui onde a gente vive, ela com certeza se tornou uma peça querida, importante e fundamental por lá. Mas mamãe não me abandona, de jeito nenhum: vive nas minhas células, na minha lembrança, nos meus sonhos, no meu coração.


Neste 23 de setembro, quero celebrar minha mãe, de muitas formas. Ir a um restaurante comer rabada, ou comida árabe, ou pudim de clara. Ou berinjela no azeite, que ela amava e eu aprendi a gostar tanto quanto, depois de adulta. Ouvir Paulinho da Viola, ou Nara Leão. Usar lavanda da Yardley. Cuidar de algum velhinho, pegar algum bebê no colo. Fazer bolo de banana. Ler Agatha Christie. Comprar vários tecidos coloridos pra fazer uma única roupa. Viajar. Ir a uma peça muito boa de teatro. Sair na rua sem rumo, só pelo prazer de ver o mundo. Conversar muito com algum desconhecido no metrô. Fazer as coisas bobas e cotidianas em que ela costumava entregar sua alma, e nas quais deixou sua marca, para sempre.

Tenho muitas histórias para contar de minha mãe, e isso me consola. Mas hoje, que é um dia especial, quero lembrar de uma cena cinematográfica que vivi junto com ela, que sempre soube enxergar o essencial das coisas e das pessoas. A descrição segue abaixo, junto com um beijo de aniversário e uma rosa branca.


Um dia fui almoçar com mamãe, no trabalho dela. Eu adorava fazer isso, porque além de vê-la, filava a bóia: ela pagava a conta do restaurante, que tinha uma das comidas mais gostosas de Recife. Fomos, comemos, conversamos. E eu fiz, como a maioria dos meus amigos já devem ter visto, uma rosinha branca de papel com os guardanapos em cima da mesa. Nessa época, ainda era uma novidade...

Mamãe achou bonito e saiu do restaurante, de flor na mão, caminhando comigo pela Conde da Boa Vista, que é uma das avenidas mais movimentadas de lá – o equivalente da Rio Branco daqui do Rio, talvez?

De longe, eu vi um grupo de meninas de seus dez, doze anos se aproximando. Sujas, mendigas, maltrapilhas mesmo. Mais de uma com um tubo de cola na mão. Liguei meu radar: atenção, perigo. Mamãe sempre teve a teoria de que as meninas cheira-cola são mais perigosas que os meninos – não sei se leu algo em algum lugar, ou se era pelo fato óbvio de que nós, mulheres, somos mais imprevisíveis e afoitas.

Aí, começou a cena de cinema. As meninas abriram um riso largo (não sei se alguma conhecia minha mãe, notoriamente visada por ter a mania de distribuir lápis de cor e brinquedos entre os meninos de rua, que conhecia pelo nome), e uma veio de longe cantarolando Roberto Carlos: “receba as flores que lhe dou, em cada flor um beijo meu...” Mamãe riu de volta, fez um gesto galante e entregou a rosa. Pra mim, já era suficiente pra lembrar a cena pelo resto da vida, mas ela não terminou por aí. Como se tivessem ensaiado, as sete ou oito meninas cercaram minha mãe e encheram ela de abraços e beijos. Eu fiquei de boca aberta, encantada com a explosão de amor.

Foi quando duas colegas de trabalho de mamãe, que também voltavam do restaurante, passaram se cutucando e apontando: “nossa, olha lá que horror, Nagicina no meio das cheira-cola”. Mal terminou de falar, a primeira linguaruda levou um murro na boca. Correram trêmulas e chorosas para o banco, lamentando a violência deste mundo perdido.

Nesse dia, minha mãe me ensinou sem palavras que a gente, normalmente, recebe o que dá.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 23 de setembro de 2005.

Duas moças (o que é ser gente)


Uma vez, eu tinha 13 anos e minha mãe me mandou ir na venda do seu Domingues, lá em Candeias, comprar linha. Eu ia sempre muito puta da vida. O bar era um saco, cheio de pinguços esperando a vida passar. E eu lá, novinha, tímida, tinha que adentrar o ambiente e perguntar se tinha linha Corrente preta, “e só serve de algodão”. O atendente era homossexual, um travesti meio gordinho e bundudo chamado Filó, que usava um cabelinho feioso espichado à força e que era uma simpatia. Mas isso eu só soube depois.

Porque da primeira vez que fui lá na bodeguinha do Domingues, passei rápido e corri pro balcão e virei pra atendente e falei: “Moça, por favor, me dá um carretel de linha Corrente preta”. Era Filó. Ela largou todo o resto, todos os fregueses que tinham primazia no atendimento, o sorriso comendo o rosto, e veio me atender.

Claro que na hora eu vi que ela não era uma moça no conceito estrito da palavra. Mas Filó ficou tão contente, que na hora de ir embora, de linha na mão, eu olhei bem no olho dela – ELA sim, a alma de Filó era de mulher, pô! – e disse em alto e bom som: “Obrigada, MOÇA”. Com isso ela me amou pra sempre, e eu fiquei achando graça de ver como é fácil fazer um ser humano feliz.
Pena que ela não foi feliz por muito tempo: foi assassinada por um maluco homofóbico, que em menos de um mês matou três ‘filós’ na região. Como Filó era pobre, preto e bicha, tenho certeza de que até hoje ninguém descobriu o culpado.

Outra vez, eu era mais velhinha, tinha o que?, uns 19 anos. Estudava jornalismo. Estava voltando do centro do Recife, de uma matéria furada de um concurso de miss qualquer coisa que fui fazer num domingo à noite. Claro que a revista furreca onde eu tinha descolado o free-lance não me deu dinheiro pro táxi. E como eu morava longe e no domingo os ônibus acabavam mais cedo, acabei ficando isolada, sozinha, no centro da cidade.

Era mais de uma da manhã, e o maldito ônibus só passava às três. Me empoleirei na grade da parada do buzu "Candeias" velho de guerra, suspirei fundo e fiquei lá, quietinha, morrendo de sono. Aí, chegou uma puta.

Puta sim, vestida pra guerra. Feia, derrubada, a cara marcada com um talho de gilete. Daquelas bem esquisitas que fazem ponto na rua da Palma, no centro do Recife. “Boa noite, MOÇA”, eu falei pra ela. E ri.

Ela riu de volta, reclamou desses ônibus que demoram, e ficou calada. Daqui a pouco chegou um cara meio mal encarado, rondando. “Sai daqui, fulano, ela tá comigo”, rosnou a puta, mostrando a gilete pra ele. E ficou lá, tomando conta de mim feito um cão de guarda, esperando meu ônibus chegar. Mais de uma hora.

Adoro gente. De qualquer cor, de qualquer sexo, de qualquer classe social, de qualquer profissão. Gente é intransitivo. A única classificação a ser feita é a do caráter: ou presta, ou não presta!

Ponto.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 21 de setembro de 2005

Ela


Às vezes dói tanto, tão fundo, na minha carne, que eu faço de conta que nem lembro. Não lembro da voz dela, não lembro do cheiro, do perfume de lavanda que gostava de usar. Não lembro do olhar que me sabia inteira, sem precisar de uma só palavra. Não lembro da raiva que eu tinha quando fritava ovo e ela vinha direto com o garfo, comer minha gema. Não lembro das crises de riso que a gente tinha, às vezes no meio de uma briga ou tensão. Não lembro da ternura enorme que ela tinha de tomar conta dos outros – velho, bebê, passarinho. Não lembro da ira incontrolável que tomava conta dela, diante das injustiças reais ou imaginárias. Não lembro da inteligência rara, da ironia fina, da generosidade inata. Não lembro da fragilidade enorme, nem da fortaleza maior ainda. Não lembro como era bom dormir junto dela ou ficar na ponta do pé e tentar alcançá-la quando eu era menina, pensando em como ela era grande. Não lembro de como eu a senti pequenina, e como a quis proteger e não pude, depois de adulta. Não lembro das músicas que gostava de cantar. Não lembro das caras e olhares que ela fazia, e que eu me pego repetindo, em fotos ou diante do espelho. Não lembro de como eu sempre me senti amada, inteira, completa quando junto dela. Não lembro de senti-la em cada célula do meu corpo, meu cabelo, meu riso, meu coração. O que eu lembro é que minha mãe ia fazer 60 anos daqui a quatro dias. E por mais que ela esteja presente – sempre! – é dessa ausência que eu não consigo esquecer.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 19 de setembro de 2005

Indefinições


Alguém que quando pega num objeto, ele jamais volta pro lugar.
Esquizofrênica cuja auto-imagem oscila permanentemente entre Isabelle Adjani e Wilza Carla.
Fenômeno da ciência: mulher cuja TPM dura o mês inteiro e um pouco mais.
Ser humano em perpétuo estado de chatice transitiva.
Mafalda. Marimesq. Maribull. Mari-moe. Marilesa. Mula sem cabeça.
Eu mesma não sei quem sou.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 19 de setembro de 2005

Paquera


Supermercado lotado, oito da noite da quinta-feira, eu na fila do caixa. Sinto uma mãozinha puxando meu braço, olho e vejo um menino lourinho e sorridente, em pé dentro do carrinho de compras atrás do meu. É a cara de meu irmão Gabriel, quando criança. Cabelo bem clarinho e olhos castanhos. "Tu qué um?", oferece ele, com um pacote de biscoito na mão. Agradeço, e ele continua a puxar papo. Fuxica todas as minhas compras: gosta de leite de soja sabor laranja, e no carrinho dele tem bolo de laranja também, quer ver?, e exibe a laranja impressa no rótulo. Vai levar 'akut pra casa (yakult), adooora 'akut. Abre o desodorante pra eu cheirar. Conta da vida toda, da escola. Se chama 'axandivié (Alexandre Vilela), é enorme mas tem só quatro anos, e como Gabriel quando menino, troca letra quando fala. Está indo à fonoaudióloga, ela mandou fazer exercícios, soprar e fazer bolha, 'assim' (mostra pra mim). Fala rápido e errado e ninguém entende muito o que ele diz, por isso é bom que converse tanto comigo, sinto no olhar da mãe, satisfeita. O papo é tão alto e tão fluido e tão feliz, que o resto do pessoal da fila começa a rir. Na hora de ir embora me dá um beijo e convida pra fazer compras, semana que vem.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 09 de setembro de 2005

Scanning


(Inspirado em uma matéria da Revista Época)


Faz um tempo que li uma matéria sobre gente invisível, e fiquei chocada de ver como não se olham os outros seres humanos nos olhos. Tem gente que me acha doida, que confunde as coisas, mas eu procuro sempre estar inteira nesse contato. É algo que tenho desde sempre e que continuo levando adiante aqui no Rio. Sempre tento construir uma relação afetiva com o que me cerca, em cada pequena coisa. O cara que vende frios no supermercado sabe o tipo de queijo que gosto. A chinesa dona do self-service onde almoço nasceu em Kundun. O bebê da vendedora de pastilhas da saída da estação Uruguaiana teve impetigo, mas já foi ao pediatra. A japonesa do restaurante da rua de trás me encontrou no supermercado e ensinou como cozinhar lulas. O ascensorista do prédio da Espalhafato adora Agatha Christie e Sidney Sheldon. O vendedor de tapioca da Cinelândia é paraibano. O vendedor de bananas da esquina me vende fiado. Baixinho, o garçom do boteco de baixo do meu prédio, me chamou da rua um dia desses pra me dar um pedaço de bolo de aniversário. O atendente da pastelaria duas ruas à esquerda é cearense e primo do atendente da pastelaria duas ruas à direita. O garçom do Doradinho, na Cinelândia, já conhece meus amigos e não me serve mais de dois gengibres por noite, para eu não ficar bêbada. O rapaz que dirige o cybercafé aqui próximo - e que me deu dicas para conseguir acesso mais barato à internet - mora no meu prédio e se chama Gustavo. O cara que me vendeu minhas cortinas se chama Cláudio. O vendedor de presunto é Nelson. E o cozinheiro do samba que frequento é Chiclete. Por enxergar a cada um deles, minha vida é mais colorida e feliz.
*Postado originalmente no Sítio de Maricota, em 15 de agosto de 2005